domingo, 8 de novembro de 2009

assuntos pertinentes aos profissionais da educ-ação

A saga de um rebelado contra ‘la mala educación’

(uma crítica-comentário de dês-ordem pedagógica, ou, do interesse daquele que leciona e sofre, mas não se entrega)

Em todo caso, não fui eu quem matou a Educação, só estava junto. Não quis ser cúmplice nem nada. Também, porque fui olhar... Droga! Imbecil! Ser professor de ‘cursinho’ não é tão fácil como alguns pensam. Na verdade, no Brasil, ser professor não é nada fácil, seja onde for como for. ‘Eita’ categoria mais mal tratada! E eu, fui escolher bem essa profissão, essa luta, essa empreitada. Agora não tem volta, já que estou nisso, nisso prossigo, quero ver aonde vai dar.

Entre aulas e aulas, fui convidado para dar algumas em uma cidade vizinha, que diferente da minha, ainda mantém o ‘X’ como letra inicial do seu nome. Aí fica fácil, não fica? Então... Se é algo que possuo, no sentido de ter, não de possuir enquanto propriedade privada, ou apenas bem de consumo, mas sim, como instrumento e bagagem, é uma diversidade considerável de material. Independente do nome dado ao material, a verdade é que tenho bastante, e o utilizo nas aulas de literatura, linguagem e redação (sempre que posso: observação importante). São livros e livros, filmes, obras, cds, dvds, etc. No caso das aulas na cidade vizinha da qual me referi já acima, aquela que começa com ‘X’ no nome, o material diversificado e tudo mais, foi ignorado por parte dos alunos de uma única turma com a qual trabalhei. Antes fosse só o material. Bem pontuado: As aulas foram ignoradas. A diretora foi ignorada. A organização da escola foi ignorada. Eu... bem, eu não deixei ser ignorado. E foi aí que a ‘cobra fumou’. Não gosto de chamar a atenção, ainda mais de marmanjo ou marmanja que tem o privilégio de estudar em escola particular com os pais pagando a mensalidade no final do mês. Estes deveriam prezar pela condição que se encontram (e alguns inteligentemente prezam), levando em conta, que muitos que não estão nessa, gostariam, e como! Eu mesmo, ralei para ter minha educação, magrinha! Mas tive. E me esforcei para chegar... Opa! Onde estou agora? Se isso for uma resposta, e é: dando aulas de literatura, construção textual (redação) e linguagem, em cursos, os ditos cursinhos pré-vestibular e ENEM, além de tocar com minha banda de rock volta e meia e escrever e ler poesias por aí, para o que ainda resta da humanidade. E vou dar aulas ainda de Sociologia e História, em breve... Creio.

Sempre estou aberto para novas experiências (mas não levem isso ao pé da letra), e nisso, me construo dia a dia, até o dia do derradeiro suspiro, aquele que não marca data nem local, mas vem, sempre, no final. Nisso, construo minhas aulas, acima daquilo que tenho em mãos e do que as escolas e/ou cursos me passam (apostilhas, livros, dvd’s, etc.). Neste caso da cidade ‘X’, me empenhem, muito, fiz o possível e mais um pouco para criar um ambiente coletivo, onde TODOS pudessem comungar do momento, ou pelo menos com as chances de incorporação iguais. Mas o golpe veio e trouxe consigo o desleixo e falta de respeito, vontade e humildade de ALGUNS alunos. Da parte da Escola, sinceramente, não sei. Tudo muito vago, e é só o que posso dizer. Um professor desamparado pelo sistema, e a escola não me deu respostas a altura, assim como parte desses alunos. A pior turma com a qual já tive o dês-prazer de trabalhar, não fosse alguns alunos de boa vontade e curiosidade mais aguda, com sede de conhecimento e coragem de querer enfrentar o mundo como ele é, duro e complexo. Ouvi, acatei dicas de alunos, não alterei a voz nem o tom ao ponto da injúria, apenas usei o que acredito, o bom senso e o diálogo. Mas a linguagem que parte daqueles alunos conhece é a da punição, ou seja, da nota. E isso, no curso em questão não existe. Fui cobrado: ‘Deve seguir a apostila’. Ok! Fiz. Mas a desconstrução e interlocução não pode parar por isso. Mantive os slides, os livros, a relação entre os vários conhecimentos, o debate, a cultura da colaboração, da interatividade, e tentei, tentei, me centrar mais na apostila. Até que a diretora me ligou dizendo que alguns alunos reclamaram: eu estava atrasado (?), isso relacionado às apostilas. Talvez, estes nem tenham se tocado, por falta de atenção e interesse dos mesmos, que quase tudo de duas apostilas eu já havia passado em slides, e assim mesmo, sempre voltei às apostilas. Aí tive que dizer respeitosamente para a ‘dire’: “Pergunta para esses alunos se eles levam as apostilas na aula!” Eis meus caros! Sempre a mesma coisa: “Ah professor, esqueci a apostila!”. Encaminhei mais de 4 redações para ajuda-los, levando para casa, lendo, fazendo as devidas considerações, e, de 15 a 20 alunos, uns 5 apenas me entregaram alguma redação, e metade deles ainda, fugindo do que eu havia encaminhado e proposto. Então, alguém pode me dizer se sou eu, o professor, o responsável por isso? Só depois fui entender porque naquela turma/escola, haviam passado uns 7 professores de literatura/redação (segundo a própria ‘dire), antes de ‘yo’. Não bastou utilizar da linguagem, do modo de proceder mais informal, adaptado e ligado aos alunos, aos seus modos de comunicação, pois a falta de interesse de alguns, prejudicou outros, na verdade, atrasou, aqueles que realmente estavam (estão), ali para se construir em pessoas mais livres e plenas. Chegou o ponto em que eu tive que escolher, ser um pouco seletivo, para não prejudicar mais aqueles que ali estavam de mãos dadas com a dedicação e vontade de saber mais. A troca é sempre válida quando se há algo para trocar. Agora, milagres (transformações), não acontecem sem terreno propício para tal, e o professor não é nenhum messias. A arrogância, a falta de conhecimento e bom senso de alguns prevaleceu, por algo estar legitimando isso, e este algo não era eu. Mas a vida faz curvas e o mundo gira. Muitos vão lembrar de mim, se vão! Bem ou mal, na hora do ENEM e/ou vestibular. Falando nisso, a escola não levou em consideração, assim como os alunos reclamantes, que o que eu havia tratado nas aulas, grande parte, caiu no ENEM (naquela prova que foi roubada), inclusive o tema de redação. Tiro certo e de um ‘ticano-zapatista-oestino’ rápido no gatilho. Enfim... continua a batalha dos professores-radiantes-produtores contra o império da mesmice-mediocridade-reprodutora.

& Fiat lux...

as portas se abrem e se fecham nos dedos...

Com-cu-rso público, dois mil e nove-mbro

Fazia um tempo que não acordava cedo no domingo, o único dia da semana que um amante da noite tem para dormir dignamente. Dia 08/11, depois de alguma década e tanto, eis que acontece o concurso público para professor do município de Chapecó Estado de Santa Catarina Brasil. Pulei da cama no susto, aproximadamente 6:30h. Tinha que estar as 7:00h na UnoChapecó para encontrar o bloco e sala da prova. Cheguei no ponto. O aglomero já acontecia no acesso. Lá dentro então, ish! Fatos como este me fazem gostar ainda menos da concorrência, do sistema capitalista e de algumas pessoas. Mas... Tudo muito desorganizado. A prefeitura terceirizou o serviço para uma empresa privada não sei d’onde nem porque, mas imagino. A responsabilidade fugiu e levou consigo o bom senso. Já viram cães famintos lutando por um naco fedorento de carne? Parecia. Os nomes não estavam em ordem alfabética nos murais. Aí já viu! Depois de um certo tempo, finalmente encontrei o bloco e a sala. A prova tinha 100 questões, e era dividida em duas. 50 questões cada. A primeira, português (incluindo interpretação de texto), gramática, e conhecimentos gerais. A segunda, 10 questões de matemática e conhecimentos específicos (no meu caso, História), apesar de muitas questões serem de geografia, sociologia e política, isso mesmo, po-lí-ti-ca! A inscrição custou R$ 80,00, o que é muito para um professor em não exercício na área, como eu, e para, ainda, disputar 2 (duas) vagas. 68 inscritos, e eu no meio disso tudo. Não me perdôo. Eu era um cão sarnento, sem raça definida, mas com certa elegância e simpatia que só os cães vagabundos de rua tem, querendo carne também. Mas não mordi ninguém. Esperei e fui de mansinho até pegar meu pedaço. Só o osso restou, mas deu pra uma sopa. A piada, digo, a prova: Um texto meio bagaceiro, tirado, pelo visto, de algum jornal ou revista medíocre. Algumas questões de interpretação eram tão subjetivas que um ácido ou ópio talvez resolvesse o problema. Mas não havia ácido nem ópio (a não ser o do povo – leia-se Marx, só para relaxar e gozar – leia-se Martinha). Então foi na raça mesmo. Algumas de gramática então, só para mestres na arte. Outras nem para eles. Até aí tudo bem. Cheguei na segunda prova, aí ferrou. 10 questões de matemática, coisa que há tempos eu não praticava. Até resolvi umas 3 questões. Duas certeiras, as demais, duvidosas. Aí veio a tragédia. As questões de conhecimentos afins. Muitas delas mal redigidas, com erros grotescos na sua formulação e até nas respostas ‘corretas’ ou ‘erradas’. Nunca fiz uma prova tão mal escrita como esta. Questões de português escritas erradas, de conhecimentos específicos com informações desencontradas e a subjetividade sempre pairando no ar. Me arrependi de não ter chegado bêbado no dia da prova. Certamente chegaria a algum lugar. Lembrei dos 80 réis da inscrição o que me doeu no bolso, e do palhaço que fui em me inscrever para disputar uma das duas vagas entre 68 inscritos. Talvez até passe, mas aquela prova não dá. Coisa porca! Nitidamente, foi feito por alguém ou alguns que captaram informações dispersas no mundo da informação virtual ou de certos livros por aí. Marx e João Rodrigues foram figuras em destaque na prova, mesmo sendo antagônicas. Só para terem uma idéia: Lagunas e não Laguna. Uma questão pedia qual o nome do prefeito atual de Chapecó. Coisas assim. A história ficou tomada pelas capitanias hereditárias e o momento Brasil-império. Nada de Estado Novo, modernidade, atualidade, Lula, nem nada disso. Fernando Henrique estava lá. João Rodrigues e Luis Henrique estavam também. Até Marcio Sander pintou entre as personagens desta fábula. Marx está morto faz tempo, e os iluministas choram nas trevas. Uma prova tendenciosa além de mal constituída. E o pato e seus 80 réis. A cerveja de duas semanas, ou alguns livros e/ou discos criando asas. Talvez passe, mas independente disso, a prova continua sendo uma piada, de mau gosto é certo. Não basta o golpe que já tomei do Estado quando passei em um concurso em número 22, e até hoje, já faz 5 anos aproximadamente, estou esperando a chamada. Já era! É a situação e o valor de uma profissão mal tratada no país: adivinhem qual? Agora a nova empreitada: se inscrever para ACT no Estado. Novidades: autenticar em cartório os certificados de cursos que somam pontos da disputa por um lugar ao sol, e ainda, enviar por SEDEX, pelo que sei. “Grana, grana e grana. Viva a festa capitalista! E o conhecimento que se ‘fueda’!” Se isso vai mudar? Não sei, mas a prova do domingo bem que merece uma anulação no fogo, e os que como eu acordaram cedo do sono-descanso-sagrado, uma explicação no mínimo descente por parte da prefeitura e da empresa que elaborou e redigiu a dita cuja (conheço pessoas que corrigem textos antes de serem publicados, tal como provas). Até que isso não acontece, vou continuar sendo cúmplice forçado de golpes e falcatruas do mundo oficial.

O espetáculo continua...

domingo, 25 de outubro de 2009

* alguns versos e mais nada...

Canção daquele que fabrica os espelhos

Fabrico espelhos:
Ao horror agrego mais horror.
Mais beleza à beleza.
Levo pela rua a lua de mercúrio:
O céu se reflete no espelho

E os telhados dançam
Como um quadro de Chagall.
Quando o espelho entrar em outra casa
Borrará os rostos conhecidos,
Pois os espelhos não narram seu passado,
Não delatam antigos moradores.
Alguns constroem cárceres,
Grades para jaulas.
Eu fabrico espelhos:
Ao horror agrego mais horror,
Mais beleza à beleza.

Juan Manuel Roca

* * * * *

Poema nos meus 43 anos

Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
… de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

Charles Henry Bukowski

Cinema:

O incrível exército de Brancaleone é um clássico do cinema italiano que retrata com muito bom humor, um período da história da humanidade. A película tem como protagonista Brancaleone, um cavaleiro fracassado que lidera um pequeno e esfarrapado exército em uma epopeia pela Europa Medieval em busca de um feudo. Em alguns aspectos, torna-se uma paródia ao clássico da literatura Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O filme é hilário, mesmo na reconstituição dos aspectos mais avassaladores da crise do século XIV. Monicelli nesta película, mostra dentro de um bom contexto (mesmo sendo hilário), a decadência das relações sociais no período feudal, a força da Igreja católica, o cisma do Oriente e a presença dos sarracenos. Grandes atuações, sob tudo do personagem central, o ator Vittorio Gassman, no papel do cavaleiro errante Brancaleone. Sou suspeito em dizer, pois o cinema italiano é um dos que mais gosto. Enfim, este filme é um dos melhores que já vi no gênero comédia.

(L’Armata Brancaleone, ITA 1965)
Direção: Mário Monicelli

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

só pra não deixar passar em branco...


"Eu não compreendo (...) um animal dotado de senso crítico, capaz de colher analogias, levantar-se às quatro horas da madrugada, para vir trabalhar no Arsenal de Marinha, enquanto o Ministro dorme até às onze, e ainda por cima vem de carro ou automóvel. Eu não compreendo (...) que haja quem se resigne a viver desse modo. (...) Porque aqueles homens maltratados pela vida, pela engrenagem social, cheios de necessidades, excomungados falariam tão santamente entusiasmados pelas coisas [tanques, encouraçados, aviões militares] de uma sociedade em que sofriam? Porque a queriam de pé, vitoriosa - eles que nada recebiam dela, eles que seriam espezinhados pela mais alta ou pela mais baixa das autoridades, se alguma vez caíssem na asneira de ter negócios a liqüidar com alguma delas?"

Lima Barreto

(7 de setembro de 2009)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

a volta daquele que não foi...

então...
estamos (estou) de volta. ou nunca fui...
talvez seja. mudanças no blog, na vida... em mim.
mudanças, sejam bem vindas!

Prosa:

“Nunca presto atenção às coisas, não sei para que diabo quero olhos. Trancado num quarto, sapecando as pestanas em cima de um livro, como sou vaidoso, como sou besta! Caminhei tanto e o que fiz foi mastigar papel impresso. Idiota. Podia estar ali a distrair-me com a fita. Depois finda a projeção, instruir-me vendo as caras. Sou uma besta. Quando a realidade me entra pelos olhos, o meu pequeno mundo desaba”.

(trecho de: Graciliano Ramos - Angústia)

Poesia:

Cantiga triste

Da ponta dos dedos os versos escorrem
Pegajosamente

Os versos caminham
E esparramam a sua mensagem
Por onde passam...
São versos indecisos...

E eles vibram
E são castigados

O desequilíbrio do mundo afoga os versos que morrem

E o desequilíbrio vem
E os versos gritam de medo
São vozes angustiadas
Que se apagam no silêncio.

E os homens sofrem como eles.
E os homens gritam como eles.

O desespero dos homens vem e invade os versos que nascem.

E os versos perguntam
Como os homens que choram:

A ordem... onde está a ordem?
Só o silêncio responde
E os versos se perdem no caos...

Antônio Paladino

* Paladino, o ‘Poeta do Desterro’, viveu, escreveu e morreu em Santa Catarina. Morte precoce pela tuberculose, antes mesmo de completar vinte e cinco anos. Autor pouco conhecido e de um único livro que se chama: A Ponte (prosa e verso). Morreu em 1950, sem saber até onde sua poesia o levaria (ou até onde ele levaria sua poesia). Figura entre os chamados ‘poetas malditos’ no Brasil. Reeditado em 2006 pela Ed. da UFSC. É um dos meus poetas nacionais preferidos. Um grande poeta catarinense que viveu a intensidade de seus versos.

Cinema:


Os Incompreendidos é um grande clássico do cinema francês. Primeiro longa metragem do diretor François Truffaut, um ícone da ‘nova novela’ francesa (Nouvelle Vague). O filme retrata a infância conturbada de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), que devido a desestrutura familiar (aspecto evidente no contexto do filme), é obrigado a viver a realidade dura do mundo adulto. O ódio da mãe, junto ao desleixo do padrasto, fazem de Antoine um delinqüente juvenil, que depois de fugir de casa e de uma escola repressora, passa por algumas aventuras junto ao seu melhor amigo, até ser preso e ser obrigado a freqüentar uma instituição de ‘recuperação’. O filme é autobiográfico, fazendo menção a vida do diretor quando adolescente. Muito adequado aos dias atuais, vendo este filme, se percebe que muitas das mazelas de nossa cultura e educação permanecem intactas: aspectos da família e da escola. Um filme simples e poético, com momentos divertidos, porém triste e realista, inovador em vários sentidos. Destaque pela beleza visual e atuações, além da direção impecável. Em suma, uma grande obra que não pode deixar de ser vista pelos amantes do bom cinema.

(François Truffaut - França, 1959)

sábado, 27 de dezembro de 2008

e o futuro? não existe ainda... está por vir.

Luzes que ofuscam

As luzes da cidade iluminam. O vento sopra no rosto do mendigo que canta bêbado seu tempo, solitário. Esperança morta dentro da carne semi-morta. Cristãos, pseudo-cristãos e outros, cantam abraçados e sorridentes, festejando o Natal e tudo aquilo que ele representa mas não é. A troca de presentes, os enfeites, as luzes, a comilança, o sobe e desce, o ‘dá ou desce’, etc. Tudo parte de um todo ou de um nada vestido de todo. Tudo é festa e alegria. Menos para o mendigo bêbado. Este ano as luzes de Natal no centro - e só no centro da cidade - estão mais belas. Em tempos de aquecimento global e de gasto exagerado de energia e de poluições diversas, elas, as luzes, são um prato cheio. E o mendigo, alheio, se abana como pode, com um panfleto comercial que virou lixo. Para o mendigo, o lixo tem lá sua utilidade. A esperança então dá suas caras. Aparece refletida no olhar do cidadão ordeiro que mira as luzes, que paga seus impostos em dia, que aceita o mundo do jeito que ele é, sempre conformado, sem dúvidas nem questionamentos, sem pensar muito, pois ‘pensar dói’, já dizia o filósofo. O cidadão ordeiro não quer sentir dor. Nem a da realidade sua, nem a do mendigo. Quem dirá a do poeta. O cidadão canta, dança, bebe, transa, peida e arrota. Não com a mesma intensidade do mendigo, mas mais bem alimentado, vestido e conformado, por poder ver nas luzes de Natal refletida a esperança do amanhã melhor, sempre melhor, mesmo que seja sempre igual. E a realidade grita, mas o cidadão não ouve, está demasiado ocupado com as luzes acima de si e consigo mesmo. Olha para seu filho e sorri. O afasta: lá vem o mendigo! Está na hora de ir embora. Amanhã o dia acorda cedo. Há trabalho.

As luzes se apagam de dia...

Rumito Gómez

terça-feira, 18 de novembro de 2008


'paredes: a porta'

...estive cantando. Passei dias e dias só e sem sono. Comecei a cantarolar quando já estava bêbado. Era passado da meia noite de um dia quente de primavera. Eu desafinava um Radiohead abraçado numa garrafa de rum barato, encontrado numa liquidação de um desses mercados de fim de rua, onde a atendente se parece em número e grau com uma daquelas personagens toscas que figuram nos filmes de David Lynch. Ela quis me beijar. Juro que quis. Não sei por que, mas quis. Até tinha um bom rabo, apesar dos dentes podres, mas não fazia meu tipo. Era muito alta e forte pra mim. Poderia acabar comigo em apenas alguns segundos ou em um golpe se quisesse. E eu não iria beija-la, de modo algum. Aqueles dentes horríveis e aquele olhar assassino me fizeram relutar. Ainda zelo por minha vida, por mais pequena e medíocre que seja. Passei a mão no rum, joguei a grana em cima do balcão e saí rapidamente. Nem quis o troco. Ela me chamou: ‘- Ei, o troco!’. Fiz de conta que não ouvi. Ganhei a rua. Cheguei em casa cansado e terrivelmente angustiado por não ter mais escrito nada - até o velho sobrado não sorrira mais para mim. Suas paredes enegrecidas pela ação do tempo, tornaram seu rosto inexpressivo - O estoque de alimento, que não era muito, já estava no fim, e minha vontade de escrever já era. Até tentei, escrevi e quis vender um conto para a revista ‘literação’, de um gay e velho conhecido, mas ele achou aquilo muito ruim. Então rasquei a merda na frente dele e perguntei se ele foi mal comido na noite anterior. Levei um golpe bem aplicado no lado esquerdo do rosto. Doeu que chegou a ecoar. Mas estou vivo. Sei que não vale a pena, mas a ultima tentativa de me regenerar frente a rotina decadente da cidade imóvel, foi sair para procurar Saborina. Nem vestígios encontrei. A via em toda mulher que me cruzava o caminho, mas nenhuma era realmente ela. Então desisti e voltei para casa, depois de horas caminhando. Foi aí que tive a iluminação: ‘- Vou passar no mercado pegar algo para beber.’ Beber e cantar, foi o que restou da minha semana. Talvez um dia volte a escrever. Talvez um dia reencontre Saborina. Talvez amanhã o sobrado volte a sorrir para mim.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

O corpo em festa...

Janela sobre o corpo

A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.

Eduardo Galeano (As Palavras Andantes)